sexta-feira, 24 de novembro de 2006


Estive aqui.


Ouvi as mesmas histórias, no Beato, sobre o Beato, sobre o regresso à doca... no tempo em que me parecia que ele fazia as melhores coisas. Era-me óbvio que ele era o melhor em tudo. Tinha sempre (uma) razão. Dávamos passos de costas.
O seu primeiro emprego na Calçada do Grilo - contava-me como um guia - os mergulhos inconsequentes no tejo, as fugas à escola. O pai, a mãe, desvelados aos poucos, com vagar. Foi-me dando a conhecer de quem era.


Depois, a minha foto. No mesmo lugar.


Dificilmente me ria, mesmo aos cinco anos... não percebia como é o senhor achava que aqueles pedaços de pano metidos nas mãos me poderiam alegrar, assim, imediatamente. Com tempo e paciência, soltei a gargalhada que ficou impressa no primeiro trabalho de escola que fiz, a 19 de Março de 1982.


Leio bocados da história que me contaram.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

"Tenho dois anos e estou ao colo da minha mãe: é um retrarto de estúdio assinado Photo Royal Lda a letras a relevo, caprichadas, a cadeira onde nos sentaram servia para os clientes todos, magestosa, de veludilho gasto e cunha de cartão na perna direita..."

:: Eu hei-de amar uma pedra::
António Lobo Antunes

Li o primeiro parágrafo, viajei até um bairro (o meu, o nosso).
O enorme homem que nos sentava numa cadeira ou banco, a timidez que me enrijecia os músculos e me impedia de sorrir, o meu desagrado por aqueles 15, 20 minutos, a minha mãe de escova em riste para me arranjar a franja, que, para meu desagrado insistia que tivesse.




sábado, 18 de novembro de 2006

Hoje, quero amanhã

Uma panóplia de cds estende-se no meu íntimo: seres estranhos, que procuro entender e cuja invasão aceito. Talvez os queira imitar, como que uma míuda de 6 anos que tenta desesperadamente calçar os sapatos de salto alto da mãe. Quero crescer, quero ser o amanhã. Hoje, quero amanhã.

terça-feira, 14 de novembro de 2006

O dia que vi

Hoje, numa quase esquina de uma rua que finda até ao meu olhar se perder, entrei
Entrei numa grande porta,mas por dentro tudo muito pequenino
Coladas na parede, peles
Fui buscar a minha pele que se foi desfiando ao longo dos dias
por estas calçadas turbulentas.
Lá estava ele.Sentado na sua pequenina quase secretária, onde descarna as peles, com graxa preta e uma escova que se perdeu nos dias contados.
Lá estava ele. De oculos tocando a ponta do nariz, não escondendo os seus olhos azuis.
Perguntou-me quais das imensas peles que se atropelam no silêncio era a minha.
Aquela.
Um par de peles, a brilhar, com a sua forma perfeita,sem fios a tocarem o chão, sem mostras da sua intimidade que outrora fora devastada pelo caminhar perpetuo.Tocou-lhes, tocou.
Num instante de uma grandeza surda, lá estava ele, a tocar.
Os seus maneirismos retocantes, a escova precisa nas linhas de um negro profundo.
Ele tocava violino sem sabê-lo

domingo, 12 de novembro de 2006

Manicures da vida

Em camadas finas, delicadas.
Ou em densas, encorpadas.
Reactivas ou proactivas.

Na realidade ou no sonho, a interpretação pessoal da vida.

A partir de hoje, basta aplicar.